Em alguns dias, eu vou voltar para o Brasil depois de ter morado por dois anos em Paris. Nesse post, eu quero compartilhar um pouco da minha experiência nessa aventura, e espero motivar estudantes a saírem de sua zona de conforto para tentar algo novo.

Um pouco sobre mim

Eu participei do programa de duplo diploma (DD) da Télécom Paris (Institut Polytechnique de Paris) como aluno da Unicamp em Ciência da Computação. Muita gente acha que esse tipo de intercâmbio só é possível para estudantes de engenharias, mas o pessoal da Matemática, Física, e Ciência da Computação pode participar também. A única diferença aparece em relação às bolsas de estudo do governo Brasileiro. Mas eu vou falar mais sobre os aspectos financeiros mais para frente.

Contexto de um DD

O DD é um tipo de intercâmbio no qual o aluno passa de 2 a 3 anos em uma instituição internacional. Quando o curso brasileiro e o curso internacional são concluídos, o aluno terá o diploma das duas universidades, como se ele tivesse feito a graduação completa nos dois lugares. No caso, os destinos mais comuns para brasileiros em universidades públicas são a França, a Alemanha, e a Itália.

Geralmente, o duplo diploma é feito após o sétimo semestre de graduação. Nesse caso, você “substitui” o oitavo e nono semestres (1 ano) pelos anos na outra universidade, e deve voltar ao Brasil para cursar o último semestre. Sendo assim, a sua formação é estendida em, no mínimo, 1 ano para conseguir mais um diploma. Há, ainda, quem faça o DD mais cedo (e.g. depois do quinto semestre) ou mais tarde. Isso depende muito da sua faculdade no Brasil. Uma vantagem de se fazer o intercâmbio mais tarde é que você pode tentar “matar” todos as disciplinas que te restam no Brasil e, assim, não precisar sair do país de destino depois de acabar os estudos. Isso é particularmente vantajoso se você pretende conseguir um emprego internacional.

No meu caso, eu saí da Unicamp depois do sétimo semestre e fiquei 2 anos em Paris. Nesse post, estou descrevendo minha experiência particular. Isso pode variar substancialmente dependendo da instituição para onde você decidir fazer seu duplo diploma, e mesmo com o passar do tempo. Os meus bixos já me contaram que várias coisas que experienciei mudaram, então tratem esse relato como uma pequena foto no tempo, e não como a verdade absoluta.

Como ser aprovado em um duplo diploma?

Muita gente (eu incluso) pensa que é necessaria uma performance excepcional durante a graduação para conseguir fazer um DD. Isso não poderia estar mais distante da verdade. O processo seletivo é muito simples: primeiro, a sua universidade do Brasil seleciona os alunos que atendem os requisitos mínimos para o intercâmbio. Depois, você envia uma carta de motivação e uma (ou duas) carta(s) de recomendação. Por fim, você participa de uma entrevista com o comitê de seleção da instituição internacional. No meu caso, três pessoas me entrevistaram. É importante destacar que esta não é uma entrevista técnica. Eles não vão fazer uma prova oral de cálculo ou pedir para você resolver algum problema ao vivo. Honestamente, eles só querem saber se você está genuinamente interessado em estudar fora do país, e se você sabe o que está fazendo. Basta ser sincero e você será aceito.

Concretamente, eu lembro que 21 ou 23 pessoas se candidataram da Unicamp e, no fim, 19 foram aceitas para a dupla diplomação. Em termos de rendimento acadêmico, a Unicamp tinha dois requisitos: um CRP positivo (CR acima da média da turma) e no máximo 12 créditos de reprovação. Atendendo-se a esses critérios, não há com o que se preocupar.

IP-Paris

ip-paris logo

O Institut Polytechnique de Paris é um conglomerado de seis escolas de alto prestígio na França. Se você notar, dificilmente encontrará a Télécom Paris ou a ENSTA em rankings internacionais. Eles decidiram se unir todos sobre o slogan do IP-Paris.

No caso do programa de DD da Unicamp, nós poderíamos escolher entre ir para a Télécom SudParis, Télécom Paris, ou ENSTA. Existem prós e contras de cada uma, e essa é uma decisão pessoal. Eu escolhi ir para a Télécom Paris mais por uma questão de domínio de estudos. Eu sabia que queria me especializar em Visão Computacional e em Aprendizado de Máquina, e a Télécom Paris tinha o percurso perfeito para isso.

Quase todas as escolas do grupo IP-Paris compartilham um mesmo campus que fica no sudoeste da região metropolitana de Paris, em um plateau na cidade de Palaiseau, chamado Plateau de Paris-Saclay. O mapa abaixo aponta onde fica o campus.

plateau

Note que o local de estudos não é muito próximo de paris (aproximadamente 1h em transporte público), mas ainda assim é perto o suficiente para passear às margens do Sena sempre que sentir vontade.

Gastos e fontes de renda

Resumo
Mesmo sem BRAFITEC ou Eiffel, é fácil conseguir uma bolsa da Télécom Paris de um montante total de 5 ou 10 mil euros. Isso já ajuda muito e, dependendo da organização, dá para viver com isso. Além disso, com um estágio de férias ou fazendo uma cesure, é possível complementar a renda e cobrir todos os gastos do duplo diploma até o estágio, quando você ganhará um salário bem mais alto.

Eu diria que esse é o “elefante na sala” quando pensa-se em intercâmbio. Muita gente muito inteligente e capaz pode acabar desistindo de fazer um DD por questões financeiras. É verdade que muitos gastos estão envolvidos nessa formação adicional, mas essa seção existe para dizer que, mesmo tendo condições bem humildes, é totalmente possível participar de um programa como esse. Alguns de meus colegas aqui vieram de lugares no Brasil com condições bem desafortunadas e, mesmo assim, tiveram muito sucesso aqui.

A maneira mais comum de se sustentar na França é com uma bolsa de estudos. O governo do Brasil oference uma bolsa chamada BRAFITEC para quem vem estudar na França. O valor padrão dessa bolsa é 800 € / mês, com um adicional de 400 € / mês se o estudante ficará em Île-de-France (região parisiense). Totalizando 1200 € por mês, um estudante que ganha essa bolsa não terá nenhuma dificuldade financeira ao longo dos 2 anos. Eles ainda pagam 600 € para auxilio de ida (e mais 600 na volta) e, para questões de seguro de saúde, mais 70 € por mês. A bolsa é paga mensalmente durante o período de estudos, mas a bolsa para quando o estágio de fim de estudos começa. Arrisco-me a dizer que quem ganha BRAFITEC vive muito confortavelmente com alguns luxos que não são comuns para a vida universitária. O ponto negativo da BRAFITEC é que apenas alunos de engenharias no Brasil podem participar. Eu, por exemplo, vindo da Ciência da Computação, não pude nem ao menos concorrer por essa bolsa. Contudo, eu lembro que em algumas reuniões que tive com outros alunos que foram aceitos para o DD, o coordenador mencionou que critérios sociais seriam levados em conta para decidir quem ficaria com a BRAFITEC.

No caso da Télécom Paris, a segunda maneira mais comum de se sustentar é por meio de uma bolsa interna da escola. Esta bolsa não é entregue mensalmente, como a BRAFITEC, mas anualmente. Muito embora oficialmente essa seja uma bolsa de “excelência”, a Télécom pediu para que todo mundo que não conseguiu BRAFITEC mandasse comprovantes de renda familiar, pois isso seria levado em conta na hora de entregar a bolsa. Em geral, o valor dessa bolsa é de 5 mil € ou de 10 mil € (ou, às vezes, algo entre os dois). No caso da bolsa de 5k, o montante é pago entre setembro e novembro do ano em que você chega. Já para a bolsa de 10k, metade (5k) é pago no começo (igual à bolsa de 5k), e a outra metade vem na mesma época no ano seguinte. Aqui vai a informação mais importante dessa parte: no meu ano, todos os estudantes de baixa renda que não conseguiram BRAFITEC foram contemplados com a bolsa de 10k. Dividindo 5k por 12 meses, isso dá aproximadamente 416 € / mês durante o primeiro ano.

Além dessas bolsas, existe também a bolsa de excelência Eiffel, que é do governo francês. Similar à BRAFITEC, com a bolsa Eiffel o estudante ganha 1200 € / mês durante todo o período que estiver na França (2 ou 3 anos), inclusive durante o estágio. Essa bolsa é considerada por muitos como a “melhor bolsa” que alguém pode ter, pois além do valor elevado ela dá outras vantagens também (e.g. moradia garantida, descontos). Naturalmente, essa é mais difícil de conseguir. Geralmente, precisa-se estar entre os melhores colocados da sua turma no Brasil e, mesmo assim, participar de um acirrado processo seletivo.

Trabalhar na biblioteca

Escrito por um amigo anônimo.

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bibliotheque

Emprestimos bancários

Escrito por um amigo anônimo.

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Estágio de férias

Escrito por um amigo anônimo.

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Cesure

Escrito por um amigo anônimo.

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BRAFITEC de novo?!

Escrito por um amigo anônimo.

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Estágio de fim de estudos

No final do duplo diploma, nós somos obrigados a fazer um estágio de fim de estudos. Esse estágio dura 6 meses (24 semanas no mínimo) e é remunerado. Durante esse tempo, não há com o que se preocupar em questão financeira. Para dar um exemplo, na área de IA ou Visão Computacional é muito difícil encontrar um estágio que pague menos que o salário mínimo francês, que é em torno de 1820 € brutos por mês.

Mas, é importante ser transparente aqui: achar um estágio (especialmente no mercado de trabalho atual) é muito desafiador e dá muito trabalho para todo mundo. Passar por várias entrevistas, aplicações sem fim, tudo isso enquanto você continua estudando… é uma época bem estressante. Anime-se, contudo, pois todos nós conseguimos, de um jeito ou de outro, encontrar bons estágios.

Gastos aproximados

É difícil quantificar quanto que alguém vai gastar morando na região de Paris. Pessoas diferentes levam estilos de vida muito diferentes e isso reflete no bolso. Acho que o que faz mais sentido na hora de estimar gastos é dividir tudo em três partes:

  • Gasto com aluguel;
  • Gasto de vivência mensal;
  • Gastos fixos.

Acredito que tudo se resume a esses dois tipos de gastos. Claro, isso considera uma vida sem viagens, luxos, etc., mas para os propósitos da essa sessão, isso basta.

Os gastos de vivência mensal são mais simples de estimar. Eu, por exemplo, gastava entre 300 e 350 euros todos os meses para manter meu estilo de vida. Entretanto, vale destacar que eu não costumo cozinhar muito, gosto de comer em restaurantes de vez em quando, e não me preocupava muito em gastar com algumas “day trips” às vezes. É bem razoavel assumir um gasto de 180 - 200 € para um orçamento apertado, sem passar necessidade.

Em termos de gastos fixos, temos basicamente a validação do visto, a CVEC, o Titre de Séjour e a anuidade da escola. Claro, existem muitos mais gastos, mas esses três são os mais substanciais. A validação do visto é feita uma única vez ao chegar na França, e custa 50 €. A CVEC é uma contribuição que todo estudante francês deve realizar para o Estado para ter, oficialmente, o status de estudante. O valor deve ser pago todo ano, e custa em torno de 200 € por ano. Depois do primeiro ano, os estudantes internacionais devem pedir um Titre de Séjour para continuar legalmente no país. Para tanto, gasta-se em torno de 75 €. Por fim, a anuidade da escola. Algumas universidades do Brasil são isentas desse pagamento, como a Unicamp e a Poli-USP. O valor, para quem teve que pagar, foi de 2650 € apenas no segundo ano. A Télécom aceita também parcelar esse valor para que ele seja pago durante o estágio de fim de estudos.

Eu diria que o aluguel é a parte que mais varia. Os preços na região de Paris são exorbitantes. Contudo, o foco aqui é tentar conseguir uma vaga em uma residência do CROUS, que são residências estudantis estatais. Morando em CROUS, o seu aluguel dificilmente será maior que 250 €. Fora o CROUS, tem outras residências com um aluguel mais barato, como ARPEJ (cerca de 430 €) e ALJT. Antigamente, nós tinhamos acesso à CAF (APL), que é uma mesada que o governo francês pagava para ajudar no aluguel. Infelizmente, a partir de junho de 2026, essa ajuda só é paga para quem tem alguma nacionalidade europeia, então a maior parte dos estudantes começou a pagar integralmente o aluguel.

Aspectos acadêmicos

Francamente, antes de chegar em Paris, eu imaginava que, academicamente falando, o duplo diploma seria razoavelmente tranquilo. Eu não poderia estar mais errado. O meu tempo aqui foi particularmente duro. Comparado à Unicamp, eu tive que estudar muito mais em Paris. A diferença de dificuldade, especialmente relativo à matemática, entre o Brasil e a França é gritante. Para tentar explicar o porquê disso, vou falar um pouco do que eu entendi do sistema de ensino francês.

Sistema de ensino francês

Digamos que você é um aluno francês que quer cursar engenharia em uma das “Grandes Écoles” francesas. Depois de terminar o seu ensino médio (lycée), você tem dois caminhos para ingressar em um curso de engenharia:

  1. Por meio de um curso preparatório (prépa), seguido de um vestibular, ou
  2. Entrando em uma universidade e depois fazendo uma prova para entrar na grande école.

Nos dois casos, você passará cerca de 2 anos estudanto antes de começar o curso de engenharia. Dá para encarar esses 2 anos antes da engenharia como um “ciclo básico” francês, comum a todas as engenharias. Depois, ao entrar na école, o curso de engenharia geralmente é feito em 3 anos (1A, 2A, e 3A), totalizando aproximadamente 5 anos de estudos superiores.

A primeira grande diferença para o Brasil é o que os francêses consideram como ciclio básico. Em linhas gerais, o prépa compreende o conteúdo que seria normalmente estudado nos primerios 3.5 anos dos cursos de matemática pura, matemática aplicada e física. Além disso, eles estudam algumas coisas que tipicamente apenas alunos de pós-graduação no Brasil estudariam, como Teoria da Medida, Análise Complexa, etc. Para o caso em que o francês vai para a universidade ao invés do prépa antes do curso de engenharia, eles geralmente estudam cursos relacionados à Matemática na universidade. Tudo isso para dizer que o nível em exatas dos francêses é muito superior ao brasileiro quando eles integram uma grande école.

Além disso, a prova ou vestibular necessário para adentrar uma grande écola é extremamente competitivo e difícil. Pense em uma prova com dificuldade nível IME ou ITA, mas com conteúdos de um curso de matemática pura. Esse ambiente altamente desafiador faz os franceses se esforçarem muito para conseguirem uma vaga numa instituição de prestígio. Já ouvi relatos de alunos que costumavam dormir 3h por dia durante os 2 anos do prépa, estudando sem parar.

Bom, uma vez que eles finalmente entram na école de engenharia, eles consideram a sua vida como “ganha”. Eles obtiveram sucesso na parte mais difícil da vida academica deles. Sendo assim, não é incomum ver franceses que não se esforçam e não ligam para os estudos no curso. Depois de todo o estresse que passaram, o curso é genuinamente fácil para eles, e aí eles “tiram o tempo perdido”, com muitas festas e confraternizações. Não estou dizendo que isso é certo ou errado, esta é apenas a minha leitura da cultura geral de uma escola de prestígio na França.

Enfim, o curso é divido em 3 anos. O primeiro ano (1A) é geralmente destinado à um estudo bem generalista, sem muita especificação de “qual” engenharia é cursada. Essa especialização acontece no 2A e, principalmente, no 3A. É exatamente aqui que o duplo diploma brasileiro se encaixa. Nós chegamos para fazer o 2A e o 3A na formação deles. Uma coisa para se ter em mente é o “nível” de um diploma de engenheiro (Diplôme d’Ingénieur). Diferente do Brasil, aqui engenharia é um mestrado (o diploma consta “Master in Engineering”). Isso contribui ainda mais para o prestígio de uma formação como essa.

2A

Na Télécom Paris, o 2A é organizado ao redor de Filières, que se traduzem por “linhas de estudo”. Os alunos devem escolher entre cursar duas filières ou cursar uma filière e um “parcours de recherche”, que é como se fosse uma formação em pesquisa academica. A maioria esmagadora dos alunos (e de quem faz DD) escolhe cursar duas filières. Para quem quiser saber mais, o site oficial da Télécom detalha bem quais filières estão disponíveis . Pessoalmente, eu escolhi fazer as filières de Image (IMA) e Sciences des Données (SD), que hoje em dia se chama DSIA.

Como expliquei acima, os franceses que chegam aqui tem um nível de matemática muito elevado. Os professores assume esse mesmo nível para os alunos internacionais, e isso gera muita dificuldade. Até hoje eu lembro da minha primeira aula de estatística que tive lá. O professor começou introduzindo o que era uma distribuição de probabilidade em termos de Teoria da Medida e integrais de Lebesgue. Claramente, eu estava tendo muita dificuldade em acompanhar o conteúdo. Na metade da aula, eu perguntei para um francês do meu lado “você está entendendo essa aula”? Ele, me olhando com certa surpresa, disse:

É claro, isso aí é muito fácil.

Foi aí que eu entendi que estava perdido. Para os curiosos, a primeira aula de estatística foi esta (eu tentei resumir aqui ). De fato, todos os cursos (especialmente os mais matemáticos) foram muito árduos.

Mais uma anedota sobre a dificuldade matemática, dessa vez de um amigo meu. No curso de otimização para aprendizado de máquina (Optimization for Machine Learning), nós assistiamos à aula do professor todos juntos e, depois, na segunda metade da aula a turma era dividida em 5 ou 6 grupos diferentes para resolução de exercícios sobre a matéria com alunos de PhD. Em uma dessas aulas, o professor do grupo estava resolvendo um exercício que falava sobre funções $L$-Lipschitz contínuas. Sem saber o que isso significava, o meu amigo perguntou ao professor, no final da aula, o que era uma função Lipschitz. Por alguns minutos, o professor tentou encontrar termos ou expressões que podiam ser sinônimos de Lipschitz. Para ele, o motivo do meu amigo não ter entendido era linguístico; ele achava que em português essas funções tinham outro nome. Ele ficou muito surpreso (e um tanto preocupado) quando finalmente entendeu que nós nunca tinhamos ouvido falar desse tipo de função. No final, ele ficou se perguntando como uma pessoa que não sabia o que era Lipschitz estava ali. Enfim, isso ilustra o que a Télécom espera de conhecimento dos seus alunos, e como os brasileiros estão bem aquém disso.

Todos os cursos são organziados de maneira bem mais dinâmica que no Brasil. Ao invés de cursos semestrais, cada disciplina dura um período de 2 a 2.5 meses. A ementa, contudo, tem normalmente o mesmo tamanho de um curso semestral no Brasil. Ou seja, vemos muito conteúdo muito rápido. Ademais, a avaliação é mais implacável: uma única prova no final do curso, sem possibilidade de exame ou recuperação. Se sua nota for maior que 10/20, você passa. Caso contrário, reprova. Tipicamente, as filières exigem que você seja aprovado em no mínimo 75% dos cursos.

É claro, a escolha de filières envonve um certo compromisso. Muitas pessoas escolhem filières consideradas mais “fáceis” (como MODS) para evitar passar muito tempo estudando. De fato, eu não aproveitei a vida parisiense como imaginei que aproveitaria, justamente porque eu ficava a maior parte do meu tempo trancado no meu quarto, estudando. Valeu a pena? Eu digo que sim, dado os meus objetivos pessoais. Particularmente, eu vim aqui não para passear ou viajar, mas para estudar. Além disso, a formação que eu queria seguir no 3A é muito concorrida, então eu precisava me dedicar muito para tentar conseguir boas notas.

Por fim, quero deixar um conselho. A Télécom tem 3 filières da área de matemática: MACS, MITRO e ACCQ. Eu sei que muitos podem se sentir tentados a fazer uma dessas filières. Por favor, tome muito cuidado com essa escolha. Nós temos exemplos de brasileiros que conseguiram fazer MACS ou ACCQ, mas eles são muito fora da curva. Considere seriamente o seu conhecimento matemático e fale com seus veteranos antes de tomar uma decisão.

3A

O útlimo ano do duplo diploma é divido em duas partes. A primeira metade é dedicada a uma formação mais específica, que pode ser uma “opção interna” da Télécom, ou um “Master 2”.

Na opção interna, o aluno faz algumas matérias, mas o principal é um projeto chamado PRIM…

Escolher fazer um Master 2 vai te conferir um diploma de mestrado na França. Efetivamente, é um duplo diploma dentro do duplo diploma, ou seja, um triplo diploma! Algumas pessoas preferem seguir por esse caminho, mas não existe muita diferença de prestígio entre a opção interna e um Master 2. Se o seu objetivo é pegar mais um diploma para te ajudar no mercado de trabalho ou para te valorizar como profissional, pode acabar se frustrando. Salvo raras exceções, um Master 2 é tão bom quanto um diploma de engenharia do IP-Paris. A exceção mais clara na área de IA / Visão Computacional é o MVA , que é considerado por muitos o melhor master da Europa nessa área. Eu fui sortudo o suficiente para fazer esse M2, então caso tenham alguma pergunta mais específica dele, não hesitem em me enviar alguma mensagem!

Enfim, tanto a opção interna quanto o M2 acabam com um estágio de fim de estudos. No mínimo de 24 semanas, o estudante trabalha em alguma empresa em regime de tempo total (35 horas por semana). Todos os estágios são necessariamente remunerados, e geralmente o salário é mais que suficiente para cobrir todos os gastos de alguém. No final, nós fazemos um relatório de estágio e uma apresentação para um comitê de avaliação.

Note que existe uma regra na Télécom que obriga todos os alunos a fazer ao menos 12 semanas de estágio em uma empresa privada (fora do setor público). Sendo assim, a menos que alguém consiga fazer um estágio de 12 semanas antes do 3A, o estágio de fim de estudos deve ser no setor privado. Caso você faça cesure por exemplo, a regra de 12 semanas é atendida com folga e qualquer estágio (mesmo laboratórios de pesquisas públicos) torna-se possívelm.

Informação importante: a escolha entre opção interna ou M2 influencia até quando você terá aulas e, portanto, a data de início de estágio. Geralmente fazer M2 implica começar o estágio até 1.5 meses depois do normal, o que atrasa a sua volta ao Brasil. Se você precisa ainda fazer alguns semestres na sua universidade de origem, considere isso para tomar sua decisão. Eu, por exemplo, só consegui voltar ao Brasil no final de setembro, efetivamente perdendo metade do semestre na Unicamp.

Vida estudantil

A maior parte da vida estudantil se passa no plateau de Paris-Saclay. Abaixo está uma foto do campus. O prédio da Télécom Paris é o do canto inferior esquerdo.

campus

Uma parte muito legal do campus é o lago da École Polytechnique, “Lac d’X”. É um lugar bem legal de passear e é geralmente lá que fazemos o famoso churrasco dos bixos!

lac

Em termos de supermercado, o plateau é terrível. Basicamente, temos o Franprix a seguir na frente da Télécom (no prédio da Kley). Contudo, o mercado não é muito grande e a rede Franprix é conhecida por ter preços bem salgados. A alternativa é pegar um ônibus e fazer suas compras em Massy, que fica à uns 12 minutos de distância.

franprix

Moradia

Os veteranos sempre recomendam os bixos de tentarem achar uma moradia no plateau. Isso porque o ritmo de aulas é bem intenso, então ajuda muito viver perto da escola. Além disso, é muito bom compartilhar a vivência com os outros brasileiros que estarão estudando com você!

No plateau, a seleção de moradias é infelizmente ainda bem restrita. O melhor dos lugares é a residência CROUS, chamada Jean d’Ormesson. A localização é excelente e o aluguel é bem barato. Temos outras residências estudantis com preços interessantes, como a ARPEJ e a ALJT. Depois, tem os lugares que são bem mais caros, como a Kley e a All Suites. Enfim, a situação residencial do plateau está muito ruim. Na nossa época, tínhamos muita ajuda do serviço de longement da Télécom, mas hoje em dia fiquei sabendo que está mais difícil de encontrar um lugar para morar. Entretanto, é evidente que o plateau está evoluindo rápido. É bem capaz que quando você esteja lendo isso, os prédios sendo erguidos lá já estejam prontos, e muitas novas moradias estejam disponíveis. O melhor é falar com veteranos recentes, que estão lá agora.

Alimentação

A principal fonte de alimentação são os restaurantes universitários CROUS. No plateau, temos dois restaurantes: um próximo da Télécom, no prédio da ARPEJ, e outro na AgroParisTech (10 minutos andando). Os dois CROUS abrem de segunda a sexta para almoço, e o CROUS da Agro abre também para jantar. De final de semana, os CROUS ficam fechados. Cada refeição custa 1€, então vale muito a pena. Para comer lá, você precisa ter pagado a CVEC e criado uma conta no aplicativo Izly.

crous pontos

A refeição funciona com um sistema de pontos. O preço te dá direito à 6 pontos para distribuir. Normalmente, você terá várias opções de prato principal, entradas e sobremesas. Você simplesmente escolhe o que quer dentro do seu orçamento de pontos. É possível pegar mais de 6 pontos na refeição, mas é necessário pagar mais para cada ponto extra.

Saúde

Transporte público

Cité Universitaire

Atividades em Paris

Escrito por um amigo anônimo.

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